01 novembro 2011

O aspirante novo e o praça antigo

Uma das passagens emblemáticas do filme Tropa de Elite, clássico do cinema nacional que lançou as questões da segurança pública brasileira para discussão pelo público amplo, é a chegada dos aspirantes recém-formados Matias e Neto nas suas unidades, com todas as precariedades, vícios e desmandos presentes na rotina dos batalhões “convencionais”. A caricatura feita pelo filme não é a toa: de fato, ao sair das academias de polícia militar, os aspirantes sofrem o que podemos chamar de “choque de realidade”, uma espécie de anulação das doutrinas, conhecimentos e teorias adquiridas durante os anos na escola.

Uma das figuras centrais do novo contexto é o policial antigo, com certa experiência na atividade policial, certamente mais vivido profissionalmente que o aspirante, mesmo lhe sendo subordinado hierarquicamente. O “praça antigo” é aquele que conhece os becos e vielas, sabe quem são os responsáveis pelas desordens e os aliados em potencial (informantes, colaboradores), além de entenderem toda a dinâmica política que influencia a prática do policiamento na localidade em que atuam. Diante do perfil de competências e habilidades do “antigão”, impõe-se uma espécie de duelo entre ele e o aspirante recém-chegado, também com habilidades e competências próprias, absorvidas na academia.

De um lado, a vaidade daquele que possui anos de atuação cotidiana, de outro, a empáfia do conhecimento técnico aliado à superioridade hierárquica, uma combinação que precisa ser gerenciada pelas partes, ou as incompreensões podem gerar conflitos constrangedores e até trágicos. Primeiramente, é preciso reconhecer que a experiência policial das ruas não exclui os conhecimentos técnicos e doutrinários – ao contrário, trata-se de um casamento necessário para que haja excelência no serviço policial.

Um policial que conhece os locais vulneráveis, e não sabe se comportar tecnicamente, corre risco semelhante daquele que, embora tome as precauções técnicas necessárias, não sabe se situar na área em que atua. Fundir essas competências é fundamental, apesar dos desafios, que podem ser reduzidos a uma palavra: humildade.

Abrir mão da condição de senhor inquestionável da prática policial é o primeiro passo para aprender com os demais, seja o policial experiente (que geralmente possui defasagem teórica), seja o policial doutrinado recém-formado (que geralmente teve pouco contato com a dinâmica das ruas). Reconhecer no outro alguém que é simultaneamente professor e aluno é necessário, deixando de lado quaisquer vaidades e sentimento de autosuficiência. Esta é uma questão de sobrevivência (pessoal e institucional).

Fonte e Foto: Abordagem Policial