15 novembro 2011

Uspianos versus policiais: ideologia passadista e estado policialesco

As opiniões que circundam esse debate são influenciadas por uma dicotomia histórica, é assim que percebo essa discussão, ressentida e traumatizada. É hora de nos despirmos de nossos preconceitos para identificar esses personagens e tentar compreender melhor essa celeuma que vem sendo tão explorada pela mídia e pela opinião pública.

O movimento estudantil tem na Universidade de São Paulo o berço da sua formação. Cenário da intelectualidade brasileira, a USP sempre foi vista como celeiro da juventude universitária organizada. O movimento estudantil teve nos anos de chumbo da ditadura militar uma importante participação nos protestos que vieram a desencadear no processo de redemocratização e emancipação política do país. Uma juventude engajada e articulada é até hoje uma herança heróica de um tempo obscuro da política nacional.

O lapso temporal que nos separa desse momento, em que o movimento estudantil adquire essa projeção, torna àqueles que empreendem o movimento estudantil de hoje filhos ou até mesmo netos da antiga juventude transviada, sem lenço e sem documento – imortalizada na literatura, nas canções e nos filmes sobre o golpe de 64.

Atualmente as demandas são outras, a sociedade se transformou, ficou, portanto, uma mancha que até hoje perverte uma história ainda mal contada, pessoas desaparecidas, torturadas, enchem de lágrimas os relatos desse episódio da nossa história. A sociedade pagou, a juventude pagou, a política ainda paga e os resultados são revistos e pesquisados até hoje. Hoje podemos considerar que todos, indistintamente, sofremos com essa herança desses tempos malditos.

O foco daqueles jovens não era atingir simplesmente a ação da PM no campus, como foi veiculado pela mídia. Eles combatiam a política que vem sendo implementada pelo atual reitor da USP – João Grandino Rodas. Projetos milionários, diálogo escasso com a comunidade local, nepotismo, dentre outras reclamações muito mais escandalosas e pertinentes, permeavam o cerne que mobilizara o movimento estudantil em questão. Entretanto, o foco fora distorcido e questões mais relevantes foram postas de lado diante da “briguinha” de jovens que queriam o direito de fumar maconha no campus.

O estopim dos acontecimentos se deu em decorrência de ações policiais de repressão ao uso de drogas, no caso, uso da maconha. Muita calma nessa hora. Ser hipócrita acerca de todo debate já existente acerca da descriminalização e de certo modo, uma prática da “tolerância” que vem sendo fomentada em torno do uso da erva é ser, no mínimo, alheio a uma realidade que salta os olhos. 

O grande azar foi isso acontecer dentro de um contexto alterado e nada auspicioso, era certo que desencadearia em encrenca. Casualidade? Tenho minhas dúvidas. Enfim, de qualquer modo, os estudantes não tiveram maturidade de perceber que suas imagens seriam utilizadas de má fé. Os PM’s estavam obedecendo a ordens, ordens legais, cabe enfatizar e cumprindo seus deveres enquanto policiais.

Para um civil, notadamente, é difícil perceber essa peculiaridade do militarismo. Já ouvi relatos de policiais militares que tiveram que agir contra estudantes que eram seus colegas e que reivindicavam algo totalmente legítimo. Sei que não deve ter sido fácil para o policial imbuído de cumprir uma missão que se direcionava contra uma ideologia que ele mesmo compartilhava.

Hoje, mais que nunca, não podemos pensar que a polícia é algo indissociado da sociedade. A polícia, meus caros intelectuais de esquerda, também ocupa os bancos das universidades, a polícia também teve seus pais esfolados vivos pela ditadura. A polícia tem demandas tantas que o movimento estudantil jamais sequer imagina, afinal a nós é negado o direito de reivindicar e de fazer greves. 

Temos que conviver com uma realidade que nos incita e com regulamento que cerceiam até nossa liberdade de pensar. Nossas idiossincrasias são frutos de nossas escolhas e de nossa cultura organizacional, entretanto. Mas não podemos continuar sendo punidos por cumprirmos ordens de nossos superiores, que, por conseguinte, cumpre ordens de nosso governo. É assim mesmo que funciona, igual ao filme Tropa de Elite, lembra?

Entendemos que a presença da tropa no campus poderia ter sido melhor concebida, mas, será que era de interesse de “nossos” líderes que assim o fosse? Será que atacar PM em serviço não é um fetiche de estudante universitário que promove movimentos acéfalos? Muito fácil ficar comprando briguinha com quem está ali cumprindo ordens e ainda tem que suportar todo tipo de desrespeito. Mais uma vez, infelizmente, estivemos onde gostariam que estivéssemos, porque nessa bagunça toda sei que tanto os estudantes desorganizados, quanto os PM’s são meras massas de manobra. A diferença é que um está ali por obrigação, o outro, muitas vezes, sem saber a razão.

Luciana Prazeres é antropóloga e aluna-a-oficial da Polícia Militar da Bahia, atualmente frequentando o 2º ano do Curso de Formação de Oficiais.

Fonte e Foto: Abordagem Policial