13 janeiro 2015

Desgastada, Segurança Pública do Amazonas muda de comandantes

O governador José Melo (Pros) fez o anúncio oficial da nova cúpula da pasta de Segurança nesta segunda-feira (12), depois de um 2014 difícil para o setor.

Sérgio Fontes (à esquerda) tem 48 anos e já comandou a PF do Amazonas e Rondônia; Orlando Amaral (ao meio) dirigia a Especializada em Roubos Furtos e Defraudações e Gilberto Gouveia já chefiou o Comando de Polícia Metropolitana
Sérgio Fontes (à esquerda) tem 48 anos e já comandou a PF do Amazonas e Rondônia; Orlando Amaral (ao meio) dirigia a Especializada em Roubos Furtos e Defraudações e Gilberto Gouveia já chefiou o Comando de Polícia Metropolitana (Arquivo AC)
Área criticada por adversários do governador José Melo (Pros) durante a campanha eleitoral ano passado e umas das mais problemáticas da administração, a segurança pública é a primeira a sofrer alterações do comando na troca de secretariado que o governador está fazendo para o novo mandato. José Melo oficializou, ontem, a nomeação do delegado da Polícia Federal Sérgio Fontes como secretário de Segurança Pública (SSP) no lugar do coronel Paulo Roberto Vital.
Para comandar a Polícia Civil, o governador escolheu o delegado Orlando Amaral, que era titular da Delegacia Especializada em Roubos e Furtos (DERF), no lugar do delegado Josué Rocha. O tenente-coronel Gilberto Gouveia foi escolhido para comandar a Polícia Militar, que estava sob o comando interino do coronel Marcos César da Silva, chefe do Estado-Maior desde o dia 26 de setembro do ano passado.
A nomeação dos novos gestores encerra um ciclo de instabilidade no setor. No dia 19 de setembro do ano passado, em plena campanha, a Justiça Eleitoral determinou o afastamento do então comandante da PM, recém nomeado, Eliézio Almeida da Silva e do coronel Aroldo da Silva Ribeiro do cargo de subcomandante da corporação, por suspeita de uso da estrutura da polícia na campanha de José Melo.
O afastamento dos coronéis, determinado pelo desembargador João Mauro Bessa, vice-presidente do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-AM), acatou a um pedido do Ministério Público Federal (MPF), que apresentou gravações de áudio afirmando que a PM e “ajudou na campanha do candidato ao Governo do Estado, José Melo, chegando a se cogitar benefícios para a corporação em caso de sua reeleição”.
Ainda durante a campanha, no fim do segundo turno, veículos da imprensa nacional noticiaram uma suposta negociação de apoio de traficantes para a reeleição de Melo. Um áudio em que o então subsecretário de Justiça e Direitos Humanos (Sejus), que é major da PM, Carliomar Brandão, supostamente negocia o apoio com um chefe do tráfico no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) foi divulgado. A conversa foi amplamente explorada na reta final da campanha do candidato adversário no pleito, o senador Eduardo Braga (PMDB). Carliomar Brandão foi exonerado do cargo na Sejus. Os casos que resultaram no afastamento dos coronéis do comando da PM e do major Brandão da Sejus estão sob análise da Justiça.
Além do desgaste provocado pelos episódios da campanha eleitoral e pelas insatisfações que quase resultaram em uma greve na PM, o governo terá que enfrentar, este ano, o crescimento do tráfico de drogas e o déficit de policiais. Outro desafio do setor é reestruturar o programa Ronda no Bairro.
Alecrim continua na Susam
O governador José Melo também confirmou a permanência de Wilson Alecrim à frente da Secretaria de Estado da Saúde (Susam). Essa é a primeira confirmação oficial da permanência de secretários herdados de gestões anteriores a de Omar Aziz (PSD) nos postos. Afonso Lobo, da Fazenda (Sefaz), também continua.
Médico, de 68 anos, Alecrim foi secretário municipal de Saúde em 1988, na primeira gestão de Artur Neto (PSDB). Wilson Alecrim também acumula três passagens anteriores na Susam nos governos de Eduardo Braga (PMDB), entre 2003 e 2010, e de Omar Aziz, entre o fim de 2010 e 2014. Nascido em Novo Aripuanã, Wilson Alecrim também foi professor titular da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e presidente da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Dourado.
Déficit de policiais é desafio
Os novos gestores da Segurança Pública terão que enfrentar um déficit de aproximadamente 5 mil policiais. De acordo com a Organizações das Nações Unidas (ONU), a proporção mínima de policiais ostensivos em relação à população é de um para cada 250 habitantes. Conforme esse cálculo, o Amazonas, com seus 3,8 milhões de habitantes, deveria ter 15 mil policiais. Hoje, o efetivo da PM, que faz o policiamento ostensivo, é de 10,5 mil agentes. Nos últimos quatro anos, o efetivo, que era de sete mil policiais, cresceu 50%.
No fim de 2014, após o resultado das eleições, o governador José Melo anunciou que vai fazer concurso público para a PM e que vai utilizar o cadastro de reserva do último concurso para preencher, no total, cinco mil vagas – quantitativo necessário para suprir o déficit. A expectativa é de que o concurso seja realizado ainda este ano.
Criticar o setor foi estratégia errada, diz ex-secretário
Com saída da SSP confirmada desde o ano passado, o coronel Paulo Roberto Vital afirmou que deixará a secretaria “bem melhor” do que recebeu. Ele faz alertas à futura gestão de Sérgio Fontes. Desgastado após a sequência de crises e ataques à pasta durante a campanha, Vital disse que os adversários políticos de Melo “erraram” ao atacar o setor.
“Entregamos o setor bem melhor do que recebemos, com trabalho desenvolvido, agregando forças. Foi uma gestão sem escândalos, com redução dos índices de violência, de criminalidade. Fizemos tudo isso com o Ronda no Bairro, o único programa de segurança que esse Estado já teve. Esse programa veio para ficar, agora é necessário que se façam melhores em tecnologia, capacitação e efetivo”, afirmou para A CRÍTICA.
Transformar a PM em uma polícia mais humana e cidadã, para ele, é um dos desafios da próxima gestão. “É necessário que haja política educacional, de família, o fortalecimento dos laços com a comunidade. A pacificação é o objetivo de todo governo, nada mais que isso. O Governo Federal tem falado em integração, o que também é um ótimo caminho”, disse.
“Essas críticas que sofremos não nos abalaram. Pelo contrário, eu tinha um compromisso e ele foi honrado com dignidade. A oposição errou em ter atacado segurança. Foi uma estratégia errada. Se fosse certa, o povo teria acolhido, mas isso não aconteceu. A população entendeu que não era aquilo. Se a segurança fosse o caos que foi mostrado, essa gestão não teria sido reeleita”, afirmou em referência às críticas ao setor durante a campanha. O governador disse, para A CRÍTICA, em dezembro do ano passado, que pretende manter Paulo Vital no governo, em outra função. “Quero reaproveitá-lo”, afirmou à época.
*Colaboraram Neuton Corrêa e Raphael Lobato Arquivo AC Sérgio Fontes tem 48 anos e já comandou a PF do Amazonas e Rondônia.
Fonte e Foto: A Crítica